Marca Maxmeio

Notícias

28 de fevereiro às 01:25

Memória roubada no cemitério do Alecrim

Em fevereiro de 2009, eu e Sandro Fortunato fomos ao cemitério do Alecrim para fotografar bustos e efígies existentes no local. Este trabalho fazia parte de um projeto de documento histórico de bustos, estátuas e efígie que existem ou existia em Natal. Ainda bem que tivemos esta idéia, pois sobrou apenas nossas fotos. Tudo ou quase tudo que existia de bronze no cemitério do Alecrim foram surrupiado.

Este mês recebemos uma denúncia de Edgar Ramalho Dantas, neto do Prof. Manoel Dantas de que o medalhão do túmulo de  seu avô  tinha sido roubado. No dia 18 deste fomos ao local e constamos o roubo não só no túmulo de Manoel Dantas como também em vários outros. Veja nas fotos o antes e o depois.

Abaixo o matéria que Sandro Fortunato escreveu no seu blog:

No dia 30 de março de 2009, no texto Turismo-histórico cultural e três velhos bigodudos, eu terminava dizendo o seguinte sobre uma das homenagens ao advogado e escritor Manoel Dantas: Já a efígie em seu túmulo, no Cemitério do Alecrim (em Natal), resiste bravamente há 65 anos. Atualizando: RESISTIA.

O medalhão que ficava no túmulo de Manoel Dantas era obra de Hostílio Dantas, pintor e célebre escultor do Rio Grande do Norte, praticamente o único nome a entrar, até agora, para a história da arte estatuária no estado.  Foi Edgard Ramalho Dantas (é ele quem aparece na foto que abre o texto), neto de Manoel, quem deu o alerta por e-mail: “Túmulos dos alemães da Condor e de Manoel Dantas depredados no Cemitério do Alecrim”. Duas horas depois, eu e Canindé Soares, acompanhados por Edgard, estávamos conferindo os estragos.

Não foi apenas isso. Outras três efígies de bronze também foram roubadas: a de Elias Lamas e as duas do túmulo de Francisquinha e Ernesto Fonseca. Aliás, deste só sobraram três letras. Até a portinhola do jazigo foi levada. Estas eram as quatro únicas efígies em bronze de todo o Cemitério do Alecrim, um dos mais antigos cemitérios públicos do país. Se há registro fotográfico das peças é por conta de meu interesse por arte tumular e por um trabalho de catalogação da estatuária da Cidade do Natal que comecei a fazer com Canindé em 2009 (é daquele ano as fotos que mostram os medalhões). Na época, a Semsur – Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, órgão responsável (?!) pela administração do Cemitério do Alecrim se disse interessada pelo trabalho, mas estava apenas tentando trazer “os inimigos” para perto, já que rodamos toda a cidade e denunciamos o abandono das praças, monumentos e cemitérios.

Natal é uma cidade conhecida pelo desprezo com que trata sua História e sua cultura. Se possível, João Pessoa e Recife se mudariam para bem longe para não ter uma vizinha igual a essa. É uma vergonha! Natal é comumente ridicularizada como “a cidade do já foi”, “a cidade do já teve”. Uma capital quatrocentona que não tem um museu. Ninguém venha dizer que tem! Tem “umas coisas” que chamam de museu e só chama assim quem nunca esteve em um. Quase tudo que se faz em Natal e é relacionado à sua História gira em torno do nome de Câmara Cascudo, que, diga-se, é extremamente respeitado no resto do Brasil e no mundo, mas também desprezado na cidade onde nasceu. A minha geração e as mais novas acham bonito falar mal dele e fazer ar de enfado quando ouvem seu nome. Aquele comportamento típico de quem quer disfarçar a própria ignorância diminuindo quem realmente fez alguma coisa. A propósito, falei que o túmulo de Cascudo, totalmente reformado pela família (como tudo relacionado a ele, pois estado e município não fazem qualquer coisa), em maio do ano passado, também foi depredado? Foi. Levaram a placa em inox com os nomes de todos que foram sepultados lá.

Fotografo cemitérios por todo o Brasil. Já fiz vários posts, aqui, a respeito disso. Cemitérios gigantescos como o do Araçá, em São Paulo, com seus 222 mil m2, no qual caberiam dezenas de cemitérios do Alecrim. Cemitérios com centenas de monumentos gigantescos, em bronze ou mármore, como os da Consolação e São Paulo. Todos seguem o mesmo esquema das necrópoles públicas brasileiras: o terreno pertence à administração pública, que zela pela limpeza e segurança do local, mas os túmulos são de responsabilidade dos donos. Sabe o que acontece com túmulos de personalidades famosas e/ou que tenham grandes obras de arte nos cemitérios de São Paulo? A administração pública tomba e se torna responsável direta por sua limpeza e manutenção. Os donos só têm direito a enterrar seus mortos. Não podem mexer neles, modificá-los. Se um túmulo está abandonado, o dono é notificado. Em Natal, os donos não são avisados nem quando os túmulos são depredados e roubados.

Para entender a situação de total abandono do Cemitério do Alecrim, basta olhar para suas ruas. As principais, próximas às entradas, receberam uma maquiagem há alguns anos. As restantes são como a mostrada na foto acima. Antes de ser enterrado e roubado, o morto ainda experimenta a sensação de andar naqueles carros performáticos de rapper americano, sacudindo para todos os lados. Não me admiraria se um pedisse para descer do caixão e ir andando até sua sepultura. Seria muito mais digno. Parece que a administração da cidade sempre entendeu “lugar de descanso” como “lugar de descaso”. Assim, passam secretários e prefeitos enquanto o cemitério continua virando pó. Dá para levar a sério uma cidade que não respeita nem os seus mortos? Se eu morrer aqui, façam uma fogueira no quintal e cremem meu corpo,  façam qualquer coisa, mas, por favor, não me levem para o Cemitério do Alecrim. Já me basta ter sido assaltado em Natal, mais de uma vez, ainda vivo.

Deixe um comentário

3 comentários em “Memória roubada no cemitério do Alecrim

  1. wellington Lima disse:

    Eu fico tão orgulhoso quando vejo um carro da guarda municipal… e os guardas? menino pare ate um policial norte americano…ja viram?…todo alinhado…tanta coisa em cima que nem sei como conseguem andar direito…e os carros…? no ar…direto…ultimo tipo…super confortáveis…uma beleza mesmo.Mas eu so vejo mesmo de passgem…e na prefeitura se vc for la…mas ai eu pergunto? e pra que serve a guarda municipal mesmo??? eu ainda sinceramente não sei. Tanto aparato, carros novos, belos uniformes…isso é bom não resta duvida. mas pra que? tai a materia…revelando o despreso o descaso e a ausencia da guarda municipal. Nas praças, são outro problema, Canindé ja cansou de mostrar aqui,é varal de roupas…camas…banho ao ar livre…piquiniques de drogados com viciados em alcool…aqui na praça de são Pedro no Alecrim… da ate um cordel, de tanta ironia, vc não pode nem sentar la com o cheiro de maconha no seu nariz…isso de dia…eu disse de DIA…qualquer hora…pontos de vendas de churrasquinhos…mesinhas nas praças…vc nem pode passar, olha é uma coisa de louco. E nas sextas feiras então… é bom nem falar.mas voltando aqui. e a guarda pra que serve, agora com poder de policia né? pois é…andam todos empafiosos…os donos da lei…vc nem pode olhar pra eles…se não…ja viu. Ta precisando o povo reclamar aos pseudos VEREADORES (não todos) mas os que dizem se importar com a cidade. e da um basta nisso tudo, moralizar, porque se não cuidar…sabe o que vai ocorrer ? vc vai ficar preso em casa e a malandragem mandando na rua. nem numa praça vc vai poder ir mais. è realmente vergonhoso…dizem que a copa vem ai pra Natal…quero so ver com esse panorama nas ruas…ou vai ser so pra Ingles ver e depois… vamos aguardar. mas enquanto a copa não vem…é bom cuidar do que ainda RESTA…senão Natal só vai ter Camara Cascudo pra se ver. (com todo respeito a ele claro) mas que precisa…precisa.

  2. Larissa Coringa disse:

    Natalenses, um povo sem memória.

  3. JannineG. disse:

    Até os mortos merecem respeito!!!

Btn Posts Anteriores